sábado, 22 de janeiro de 2011

RAÇA, CULTURA E CLASSE NO BRASIL

por Sueli Carneiro(foto)


 
“Não sou, nem nunca fui favorável a algo que pudesse provocar, de qualquer forma, a igualdade social e política entre as raças branca e a negra; não sou, nem nunca fui favorável à transformação de negros em eleitores ou jurados, ou à sua aceitação para cargos públicos... A isso acrescentarei que existe uma diferença física entre a raça negra e a branca que, segundo creio, para sempre impedirá que as duas raças vivam em condições de igualdade social e política. E, na medida em que isso não pode ocorrer, enquanto permanecerem juntas, deve haver uma posição de superior e inferior e tanto quanto qualquer homem, prefiro que a posição superior seja atribuída à raça branca" (Abraham Lincoln, presidente dos EUA, 1894).1


Diferentemente de Abraham Lincoln, o sociólogo Gilberto Freire, inventor do mito da democracia racial brasileira, estabeleceu os parâmetros segundo os quais a sociedade brasileira deveria regular as suas relações raciais.

Diz Gilberto Freire: "Devemos nos considerar uma gente que goza de extraordinária paz e harmonia racial. Contraste com aquelas partes do mundo em que ódios raciais existem sob formas, por vezes, as mais violentas, as mais cruas" (Gilberto Freire, pai da sociologia brasileira, 1979).2

A dramática questão do apartheid na África do Sul sempre suscitou a comparação sobre a situação dos negros sul africanos e brasileiros.

A consciência nacional brasileira sempre se sentiu aliviada diante do conflito racial sul-africano naquilo em que ele ratificava o decantado mito da democracia racial brasileira. Afinal, diante dos confrontos diretos de negros e brancos na África do Sul podíamos nos considerar num paraíso racial.

Para o estudioso Carlos Hasembalg este mito da democracia racial se sustenta no Brasil em função das seguintes características:

1.      ausência aparente de conflito racial;
2.      inexistência de segregação legal;
3.      presença de alguns não-brancos nas elites;
4.      miscigenação racial da população, indicadora de tolerância racial.

Isto coloca a diferença crucial do racismo brasileiro em relação ao praticado tanto nos Estados Unidos como na África do Sul. Agora vamos analisar como nós brasileiros realizamos, na prática social, esta notável experiência de democracia e igualdade racial.

1) Pesquisa realizada pelo IBASE sobre o extermínio de crianças e adolescentes no Brasil apresenta dados levantados no período de 1984 a 1989 em 16 estados do país, nos quais registram-se no Instituto Médico Legal 1.397 assassinatos de menores de 18 anos. Destes menores, 87% eram do sexo masculino, 12% eram brancos, 52% eram negros e 36% sem informação de cor.

“O estudo das características das vítimas confirma a tendência observada em outros níveis de análise: maioria do sexo masculino... não brancos e assassinados predominantemente por projétil de arma de fogo.” 3

A violência racial que estes números expressam conduziu o CEAP - Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, entidade do movimento negro do Rio de Janeiro, a produzir e divulgar nacional e internacionalmente, um extenso diagnóstico do processo de extermínio de crianças e adolescentes no Brasil e desencadear, a nível nacional, a campanha "Não matem nossas crianças".

2) Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios - PNAD/88. Dados sobre agressão policial sofrida pela população brasileira em 1988 mostram que: foram agredidos por policiais naquele ano 3,9% de brancos e 10,7 % dos negros passaram pela mesma experiência .

A fragilidade da democracia racial brasileira evidencia-se também quando se constata a desigualdade nas decisões judiciais: dados coletados em processos criminais em São Paulo atestam que negros e brancos sofrem penas diferentes para os mesmos crimes: processos referentes a roubo qualificado, por exemplo, mostram que 68,8% dos réus negros e 59,4% dos brancos foram condenados. Mesmo entre réus que constituem advogado particular, a diferença persiste: a defensoria particular logrou obter absolvição para 60% dos réus brancos, más apenas 27% dos negros foram absolvidos. Em 480 processos analisados, 27% dos brancos respondiam em liberdade e somente 15% dos negros encontravam-se na mesma situação.

Em Salvador, uma das cidades brasileiras com maior população negra, o Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana - um ‘sanatório' de planejamento familiar- lançou em 1986 uma campanha publicitária nos jornais e na televisão com dois anúncios: Um deles tinha o seguinte slogan: "Defeito de fabricação", ao lado de um garoto negro, com correntinhas no pescoço, canivete na mão e uma tarja nos olhos. Abaixo desta imagem vinha o seguinte texto:

“Tem filho que nasce para ser artista. Tem filho que nasce para ser advogado ou vai ser embaixador... Infelizmente, tem filho que já nasce marginal.”

O outro anúncio, utilizava uma fotografia deprimente de uma mãe negra, grávida, coberta em parte por um lençol branco, acompanhada de mais um slogan: "Também se chora de barriga cheia".4

3) São Paulo, 1982: o GAP - Grupo de Assessoria e Participação do Governo do Estado elabora um documento "Sobre o Censo Demográfico de 1980 e suas curiosidades e preocupações". Neste documento, é apresentada a proposta de esterilização massiva de mulheres pretas e pardas com base nos seguintes argumentos: "De 1970 a 1980, a população branca reduziu-se de 61% para 55% e a população parda aumentou de 29% para 38%. Enquanto a população branca praticamente já se conscientizou da necessidade de se controlar a natalidade... a população negra e parda elevam seus índices de expansão em 10 anos, de 28% para 38%. Assim, teremos 65 milhões de brancos, 45 milhões de pardos e 1 milhão de negros. A manter esta tendência, no ano 2000 a população parda e negra será da ordem de 60%; por conseguinte muito superior à branca e, eleitoralmente, poderá mandar na política brasileira e dominar todos os postos-chaves, a não ser que façamos como em Washington, capital dos Estados Unidos, onde devido ao fato da população negra ser da ordem de 63%, não há eleições".5

Essas preocupações demográficas foram expressas por Benedito Pio da Silva, do grupo de assessores do então governador do Estado de São Paulo.

Parece que em concordância com as preocupações do sr. Benedito Pio da Silva, no Estado do Maranhão, onde a população negra representa perto de 80% da população total, encontramos um dos maiores índices de esterilização feminina do país: 75% das mulheres maranhenses em idade reprodutiva estão esterilizadas.

Em contrapartida, em Estados de maioria branca, como por exemplo no Rio Grande do Sul, o índice de esterilização de mulheres fica abaixo da média nacional, que é de 44%.

Embora a incidência de miomas em mulheres negras seja substancialmente maior em relação às brancas, há uma proporção excessivamente elevada de mulheres negras histerectomizadas: 15,9% contra 3,6% das brancas: úteros desvalorizados, a poucos interessa preservar. Por outro lado, há maior incidência de perdas fetais entre mulheres negras: (17,%), do que entre as brancas, (10%).

De um lado, uma estratégia de repressão alterna agressões policiais, prisões arbitrárias, tortura e extermínio. Nesta estratégia, o principal alvo é o homem negro. De outro lado, uma estratégia controlista tem como alvo principal a mulher negra.

A combinação destes dois mecanismos vai promovendo sistemática e, talvez inexoravelmente, o genocídio.

Porém, a violência racial, tal como se manifesta no Brasil, não se limita aos corpos negros contados pelo Instituto Médico Legal - IML, à arbitrariedade e impunidade das agressões policiais contra negros, ou a projetos controlistas aqui discutidos. Estas ações expressam, na verdade, as formas limites que as relações de força entre brancos e negros atingem no Brasil.

A violência racial no Brasil tem uma face mais sutil; porém não menos violenta, que consiste na sistemática criação e reprodução da desigualdade entre os grupos étnicos, manifestando-se em todos os aspectos da vida social.

4) 1988: a Secretaria de Educação de Minas Gerais elaborou a cartilha "Centenário da Abolição", destinada às escolas públicas mineiras. Esta cartilha ensinaria às crianças, entre outras coisas, que: "Deus criou o homem branco. Com inveja, o Diabo tentou fazer um ser semelhante e acabou criando o negro. Com raiva da criatura, que havia saído muito feia, o Diabo deu um soco no nariz do negro, que acabou ficando achatado. Triste, o negro começou a chorar muito. Com pena, o Diabo passou a mão sobre a cabeça da criatura, e os cabelos se tornaram carapinha!".

 Esta cartilha foi elaborada pela Comissão de Moral e Civismo da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Compunham a Comissão, dois coronéis, três professores, um desembargador e uma técnica de educação, redatora dos textos.

A veiculação da cartilha na rede pública de ensino só foi impedida em função da ação enérgica de denúncia do Movimento Negro Unificado de Minas Gerais, que obrigou o secretário de Educação a determinar o recolhimento da mesma.

Mas a discriminação do negro nos instrumentos didáticos ou pedagógicos é apenas um aspecto da desigualdade no acesso à educação, que se manifesta nos índices superiores apresentados pelos negros quanto a repetência e evasão escolar, e nos índices de analfabetismo e a participação percentual ínfima nos níveis universitários.

Articulada com a discriminação no acesso à educação, encontramos no mercado de trabalho a divisão racial do trabalho, encarregada de frear qualquer esforço de mobilidade social para o negro. Mais um exemplo mineiro:

“Sabe-se que aqui mesmo na capital mineira um diretor de empresa pública afastou sumariamente dos quadros funcionais de seu gabinete todos os elementos de cor, onde só admite funcionários brancos e de boa aparência. Louve-se, até certo ponto, essa preocupação estética, que vem modernizando e limpando dependências e instalações da repartição, a fim de que tenham uma aparência condigna e decente.” 6

Dentre as artimanhas do racismo brasileiro a exigência de boa aparência presente nos anúncios de emprego traz como subtexto: negros não se apresentem. Através do pequeno eufemismo da boa aparência, mantém-se a população negra alijada do mercado formal de trabalho e ao mesmo tempo garante-se os melhores empregos e salários para os brancos.

Em relação ao acesso ao poder, as desigualdades existentes entre as mulheres brancas e negras são ilustrativas do lugar destinado ao negro na sociedade brasileira. Conforme a pesquisadora Fanny Tabac, “O Congresso Brasileiro espelha a divisão do poder segundo os privilégios ou exclusões de sexo e raça”. Dentre 550 congressistas eleitos em 1990, apenas 29 eram mulheres, representando um universo de cerca de 75 milhões de brasileiras, destas 28 eram brancas, e uma, a então deputada federal Benedita da Silva, representava sozinha cerca de metade da população feminina do país, ou seja, em torno de 32,5 milhões de negras.

No poder Executivo, as mulheres atingiram um status político maior. Em 1988, eram 107 os municípios chefiados por mulheres. Este número subiu para 171 na eleição seguinte de 1992. Esses números representam um avanço significativo da presença política das mulheres que começam a freqüentar os gabinetes do poder. No entanto, as mulheres negras não estão aí representadas. Continuam servindo cafezinho e limpando as mesas de decisão.

A análise de qualquer indicador social no Brasil aponta para a persistência da dicotomia entre o mundo branco e o não-branco. Pretos, pardos, mulatos, mestiços em geral, formam um grupo homogêneo em termos de condições desfavoráveis de vida.

Como afirma Tereza Cristina Araújo, pesquisadora do IBGE: "em todas as categorias sócio-ocupacionais em que está inserido, o negro ganha menos do que o branco nas mesmas condições... Em termos médios, os negros ganham a metade dos salários dos brancos...", e apresentam

um retorno menor de seu investimento em escolaridade... O diferencial de rendimentos entre brancos e negros que têm cursos de nível superior é de cerca de 40%... o negro vive em condições de trabalho mais precárias e um menor acesso às garantias trabalhistas .7

Muitos tentam relativizar o peso do racismo no processo de marginalização social vivido por estes segmentos. Os argumentos falam de pobreza, miséria, desigualdade na distribuição de renda. Sem dúvida; porém, pobreza no Brasil é algo com identidade racial; ela é predominantemente não-branca (...)

“sempre que se generaliza a pobreza no Brasil, incorre-se num grave erro de percepção que desarticula qualquer argumentação: Uma parcela da população branca é pobre; a totalidade, o Universo da população negra é pobre.” 8

Assim sendo, para além da dominação de classes convive-se com a dominação de raça. Se a luta de classes sem trégua que se trava no Brasil tem por sentido estratégico assegurar os privilégios das classes dominantes, a violência racial funciona como mecanismo insubstituível de garantia de todas as posições de mando e de poder no país para o grupo étnico dominante, ou seja, os brancos.

O resultado concreto destas práticas sociais é o fato de que os negros estão fora de todas as instâncias de poder da sociedade brasileira.

Portanto, no Brasil desenvolveu-se uma forma muito mais sofisticada, perversa e competente de racismo, através da qual, a intolerância racial mascarou-se em igualdade de direitos no plano legal e concretizou-se na absoluta desigualdade de oportunidades no plano das relações sociais concretas.

A ideologia da democracia racial, a miscigenação massiva, a igualdade no plano legal induziu negros e brancos a acreditarem que a situação de inferioridade social dos negros se deve a sua própria incompetência. Impediu que se tornasse evidente que, tal como nos alerta a senadora negra Benedita da Silva no prefácio da edição brasileira do livro Escrevo o que eu quero de Stevie Biko, que

“os métodos de segregação racial utilizados no Brasil e na África do Sul, embora diferentes entre si, alcançam resultados iguais. Os bantustões sul-africanos aqui são redefinidos nos conglomerados de favelas, alagados e invasões, compostos majoritariamente por população negra; a lei do passe sul-africana é aqui mascarada na exigência da carteira profissional assinada, violenta e vexatoriamente requisitada pelos policiais brasileiros ao trabalhador negro desempregado e marginalizado.”

Diferentemente do que ocorreu nos Estados Unidos e na África do Sul, todas essas estratégias de opressão e marginalização do povo negro brasileiro se desenrolam pacificamente, com a conivência dos brancos e a alienação da maioria dos negros, pois um dos produtos dessa forma cínica e camuflada de racismo é a não criação de uma consciência coletiva nos negros, capaz de organizá-los contra esse inimigo covarde que nunca se apresenta, já que "ninguém é racista" no Brasil. Por isso todos preferimos acreditar conforme nos informam os nossos políticos, intelectuais e mesmo o senso comum, que os negros vivem pior porque são na maioria pobres, não porque são negros ou que no Brasil o que existe é um apartheid social (nome moderno da velha democracia racial) e não racial.

Portanto, nós militantes ou ativistas negros, como Dom Quixotes subdesenvolvidos, lutamos contra moinhos de ventos. É assim que se vem realizando a democracia racial brasileira. Sem Mandelas, sem Bikos, Luther Kings ou Malcolm Xs, sem confronto racial direto, onde através dos massacres, extermínios, fome, desemprego, esterilizações, vai se promovendo silenciosamente o genocídio do negro brasileiro.

Ao contrário do que ocorre no Brasil, o apartheid e a segregação racial se constituíram historicamente em instrumentos concretos da intolerância racial. Onde o apartheid e a segregação racial regularam as relações raciais, foi possível aos negros desenvolverem uma clara consciência sobre o peso do racismo na determinação de sua opressão e condição social. A segregação, contraditoriamente, preservou, ainda que minimamente, a sua identidade racial e constituiu-se em instrumento de luta no processo de afirmação e emancipação para negros norte-americanos e sul-africanos. Instigou a criação de instituições de apoio, solidariedade e desenvolvimento destas comunidades negras; produziu lideranças políticas fortes e conseqüentes de prestígio nacional e internacional.

Porém no Brasil, talvez como sintoma do grau de colonização das nossas elites, a democracia racial brasileira produz, na prática, com muito mais eficiência e total dissimulação, tanto o projeto de Abraham Lincoln como o dos criadores do apartheid sul africano.


Notas:
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* Sueli Carneiro é coordenadora executiva do Geledés - Instituto da mulher Negra. Este artigo foi retirado parcialmente do Caderno “Reflexão” -  Expectativas de Ação das Empresas para Superar a Discriminação Racial, Ano 3 - nº 8, Set. 2002. Publicado pelo Instituto Ethos - Empresas e Responsabilidade Social.

1. Texto extraído do livro "Abranham Lincoln - Complete Works", organizado por Nicolay; Hay, Centuri Company, 1894, pags. 369-70 e 457-8, in: Jones, James M.; Moreira Leite, Dante, " Racismo e Preconceito", Ed. Blucher Ltda, 1973.

2. Jornal Folha de São Paulo, “Racismo no Brasil”, 8.10.79.

3. Revista Ceap, "Extermínio de crianças e adolescentes no Brasil", pgs. 28 à 33.

4. Jornal O Globo - Caderno B Especial, 1.6.86.

5. Denúncia feita na Assembléia Legislativa de São Pulo pelo deputado Luis Carlos Santos, do PMDB em 5.8.82. Vide também matérias nos jornais: Jornal da Tarde, de 6 e 11.8.82; O Estado de São Paulo, de 5 e 10.08.82; Folha de São Paulo, de 11.08.82.

6. Thales de Azevedo, "Democracia Racial", pg. 46.

7. Tereza Cristina Nascimento de Araújo. Revista Ciência Hoje. Encarte Especial, Vol. 5, Ano-28, pgs. 18-19, 1986.

8. Dora Lúcia de Lima Bertulho. "Racismo-Democracia-Direito Alternativo", Comunicação apresentada no 2º Encontro Internacional de Direito Alternativo, Florianópolis, SC, Set/Out 93.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

DEBATE SOBRE O RACISMO NO BRASIL

"Nosso racismo é um crime perfeito"
- Entrevista para a Revista Fórum -

O antropólogo Kabengele Munanga(foto) fala sobre o mito da democracia racial brasileira, a polêmica com Demétrio Magnoli e o papel da mídia e da educação no combate ao preconceito no país.


Por Camila Souza Ramos e Glauco Faria

Revista Fórum - O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?

Kabengele - Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.  Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram. A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia? Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso. Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas.
Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.

Revista Fórum - Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo...

Kabengele - Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.

Revista Fórum - Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial?

Kabengele - Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.  Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendê ncia. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira. Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.

Fórum - Que é o argumento do Demétrio Magnoli...

Kabengele - Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, "negro, volta pra senzala". Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.

Fórum - Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?

KabengeleTenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A idéia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.

FórumMas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?

Kabengele - É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. "Ah, é só mudar a escola pública." Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica. E tem esse argumento legalista, "porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil". Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.  Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi. A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.

Fórum - O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito...

Kabengele - O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la. Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.  Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: "Não vou alugar minha casa para um negro". No Brasil, vai dizer: "Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar". Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
 Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: "você já discriminou alguém?". A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: "você que é complexado, o problema está na sua cabeça". Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito?
Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Revista Fórum - O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.

Kabengele - Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade. Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

LITERATURA BRASILEIRA: COISA DE BRANCO?

Achei interessante reproduzir este texto-entrevista, postado no BLOG de um outro pesquisador a quem admiro e gosto de aprender sempre mais: Nei Lopes (abaixo do texto deixo o endereço de sua página).

Segue, portanto, a reflexão que dá título a esta postagem:

LITERATURA BRASILEIRA: COISA DE BRANCO?


Nosso amigo e irmão espiritual Alberto Mussa (na foto), escritor premiado e prestigiado, autor de instigantes romances como Elegbara, O enigma de Qaf, O trono da rainha Jiga, O movimento pendular e Meu destino é ser onça, acaba de ter postada no Rascunho, o jornal da literatura do Brasil, uma entrevista da pesada concedida ao Paiol Literário - projeto promovido pelo Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e o Sesi Paraná.

Na entrevista, Mussa fustiga mais uma vez o racismo da Literatura Brasileira. E o faz com argumentos irrefutáveis, como os seguintes:

 “Em 99,9% dos romances brasileiros, você só chama de negro quem é negro. A quem você não dá a cor, presume-se que é branco. Por quê? Porque você escreve pensando como branco e, o que é mais grave, escreve para um público branco. As pessoas que fizeram a literatura brasileira do século 20 não imaginavam que sua obra pudesse ser lida por negros. Não imaginavam que os negros iriam à escola um dia, que seriam universitários, que seriam intelectuais. Escrevi um artigo sobre Monteiro Lobato que me causou um problema tremendo, porque eu disse que sua obra era completamente imprestável, apesar de ser genial. Tenho um grande amigo que é negro, e sua filha negra estuda numa escola onde pegaram para ler o Monteiro Lobato. E, ali, ela leu que a negra é beiçuda e burra. A Tia Anastácia é caracterizada assim. Aí, me responderam ao artigo dizendo que aquilo era um absurdo, porque, para compreender um livro, eu tinha que contextualizá-lo historicamente. Aí, eu pergunto: você vai contextualizar historicamente um livro para uma criança negra de sete anos, que estuda numa escola de padrão alto onde todos os seus colegas são brancos? Vai pegar um livro que diz que a negra é burra, feia e fedorenta - que é como a Emília se refere à Tia Anastácia - e vai querer contextualizar isso historicamente? Esse livro é imprestável para ser usado numa sala de aula. Ele reforça esses estereótipos. Esse é um problema que trai o nosso racismo. Pegue os grandes autores: José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa. Os melhores. Você vai ver, neles, esse procedimento. É o personagem Fulano, o Sicrano e, na hora em que aparece o preto, é "o preto". O preto Alguém. E, dali a pouco, esquece-se o nome do personagem e ele passa a ser só "o preto", ou "o mulato". Não é possível. A gente tem que encontrar outra forma de tratar disso.

“Nos meus livros, nunca digo que um personagem é negro. Nunca digo, o leitor vai ter que descobrir. Vou dar indicações. Se falo que ele é um escravo, e estou falando do período da escravidão, você pode deduzir isso mais facilmente. Mas, no livro que estou escrevendo agora, tenho essa dificuldade. Ele não se passa no período da escravidão. Se passa em 1910, 1920. É um exercício interessantíssimo mostrar ao leitor que um personagem é negro sem dizer que é negro. É um desafio, é difícil. Antigamente, em lingüística, isso era chamado de "elemento marcado". O elemento marcado era aquele que você "tinha que dizer". Quando você não diz alguma coisa, presume-se outra. Então, a literatura presume-se uma coisa de brancos. Escritores brancos e leitores brancos. Quando aparece um elemento negro, ele tem que ser marcado”.

Falou, Mussa! E o Lote assina embaixo.

 
(Postado em 16 de Dezembro de 2010 - in: http://www.neilopes.blogger.com.br/)


domingo, 2 de janeiro de 2011

OJUOBÁ : CAMINHADA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA


DIÁLOGO CONTRA INTOLERÂNCIA: em Promoção do Respeito à Dignidade Humana

por Reinaldo João de Oliveira

A partir de setores ligados à Pastoral e ao Diálogo Inter-Religioso, iniciou-se a pouco tempo no cenário nacional uma importante reflexão dos aspectos que aproximam o povo AfroBrasileiro na perspectiva das Religiões de Matrizes Africanas e da tradição Católica inculturada e sintetizada. Tendo como busca conhecimentos mútuos em prol de causas envolvendo a dimensão afrodescendente, alguns encontros locais e outro nacional foram motivados por atitudes de entendimento e respeito, como 'valores universais' para o diálogo.

Analisamos que infelizmente ainda prevalecem, em muitos momentos, conflitos e oposições de ideologias por mudanças mundo afora, e em conseqüência disso, no Brasil, as relações inter-religiosas que implicam a Igreja Católica, não estão ausentes a tal situação. São muitos os assuntos em debate no cenário nacional que toca de perto alguns pontos em pauta, a começar pelas leis 10.639/03 e 11.645/08, que diz muito à questão da Promoção da população brasileira afro-indígena.

Percebemos que há realmente uma necessidade de afirmação das identidades do nosso povo, que devem ser buscadas conscientemente como passos legalmente construídos nas lutas e no trabalho realizado na prática, em prol da vida, do respeito e dignidade cada vez melhor.

Seria bom refletir que com o advento da República no Brasil, as Religiões de Matriz Africana sofrem o impacto da modificação na estrutura demográfica, bem como novas estratificações sociais. Uma vez que o negro seja camponês, artesão, proletário constitua uma espécie de subproletariado, sua religião apresentando-se diversamente ou exprimindo-se em posições diversas, com condições de vida e quadros sociais não identificáveis (cf. BASTIDE, 1989, p. 31). Disso se depreende a urgência de se ligar a questão religiosa dentro da própria noção de sociedade.

O comportamento religioso na manifestação do imaginário das pessoas negras e afrodescendentes através de quilombos e das suas práticas religiosas afrobrasileiras, hoje, sente a necessidade cada vez maior de uma ‘justificativa reparatória’ (cf. Doc. PAB, 85, ns 10, 11 e 13). Há questões que merecem ser mais bem fortalecidas quanto aos entendimentos distorcidos por desconhecimento da própria cultura afro, por parte das pessoas que se dizem religiosas dentro de mentes fanatizadas.

Adotar, hoje, esta postura de diálogo é mais que tudo uma atitude de busca por reparação social e religiosa aos cidadãos e cidadãs que durante muito tempo estiveram sob a égide da condenação em vários níveis, principalmente de intolerância.

No que concerne ao aspecto religioso, à população brasileira sempre foi declarada como notadamente católica, cristã. Apesar de campear um catolicismo popular, a Igreja Católica durante séculos manteve um sistema tradicional, culpando os abusos da democracia liberal pelos desmandos da vida moderna, distanciando dos sistemas tradicionais relacionados a vida do povo em suas expressões ‘sintéticas’ de sobrevivência. Hoje, sabemos que os/as negros/as e afro-descendentes não confundiram suas crenças com os Santos e Santas do culto Cristão-Católico. O/a negro/a, portanto, tentou não se desvestir das crenças, mesmo com as formas ‘sintéticas’ de rito.
  • Muitos negros, ao receberem o batismo compulsoriamente, mantiveram a fé cristã e a prática católica, por força da imposição e do condicionamento. Outros, no entanto, embora o tenham recebido em igual situação, entenderam que não havia oposição entre as suas tradições religiosas de origem e os elementos fundamentais da fé cristã (cf. SILVA, Antônio A., 1988, p. 12.).

Os cultos, as manifestações religiosas de Matriz africana somente foram toleradas recentemente, com as leis que favorecem o direito de culto. Contudo, ainda predomina muitas posturas intolerantes de repressão religiosa no cenário nacional.
  • Impossível imaginar, que uma nação recém-emancipada de um regime ditatorial, com todo o seu povo voltado para a reconstrução da democracia, guardasse no seu seio um bolor tão contaminado pela ganância, desfaçatez, ignorância e, principalmente, pela intolerância (cf. SANTOS, Ivanir dos. 2009, p. 11.).

A partir do que ainda pouco refletimos sobre os elementos de diálogo inter-religioso, podemos considerar que precisamos conhecer melhor o “outro” na sua cultura, religião e fé. Agindo deste modo, favorecemos um diálogo sadio, sem romper com o dinamismo da consciência, pois “a grande questão do nosso presente, caracterizado pela crise da identidade saturada de ideologia, é cada vez mais a do reconhecimento e da acolhida da alteridade e da diferença”(cf. FORTE, Bruno, 1999, p. 5.).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  1. BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações. São Paulo: Pioneira, 1989.
  2. DOCUMENTO - ESTUDOS DA CNBB n. 85. Pastoral AfroBrasileira. São Paulo: Paulus, 2002.
  3. FORTE, Bruno. Teologia in dialogo, Milano: Rafaello Cortina, 1999.
  4. SANTOS, Ivanir dos / FILHO, Astrogildo Esteves (orgs). Intolerância Religiosa & Democracia, 1.ed. – Rio de Janeiro: CEAP, 2009.
  5. SILVA, Antônio A. APN´s: presença negra na Igreja. In: ASSOCIAÇÃO ECUMÊNICA DOS TEÓLOGOS DO TERCEIRO MUNDO (ASETT), A História e a Fé do Povo Negro no Brasil e na América Andina. São Paulo, 1988.

 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

EXISTE UM PENSAR HERMENÊUTICO-TEOLÓGICO NEGRO?

Por Reinaldo João de Oliveira1

Nosso maior desafio é o de uma teologia que tem bases epistêmicas e hermenêuticas de acordo com o “chão comum” da cultura, na construção local de saber, de apropriação contextual e política de linguagem.

O diálogo inter-cultural, inter-religioso e ecumênico, como “espaço de reconhecimento e legitimação de cultura” nos auxilia a “situar-nos dentro do mundo”. Neste foco, desenvolvemos um diálogo, partindo de uma “interpretação” sobre o tema que aqui nos impele a reflexão: “Existe um pensar hermenêutico-teológico negro?”2 O objetivo passa ser, portanto, esse “pensar” como ação situada e, por isso, o sentido de um “situar-se” em determinado “lugar”. A hermenêutica se torna “casa” (oikos) de um embasamento reflexivo e vivencial do “olhar-escuta”, do “aprendizado-ensinamento” na perspectiva teológica afro-americana. Sem dúvida que nossa busca compreende os fundamentos do fazer teológico, como missão de concepção de um olhar para a teologia de modo diferente e, assim, uma busca pela epistemologia da própria teologia, ou do que seja “esse tipo de fazer teologia”.

Começando por fazer um caminho pelos fundamentos do termo 3,“hermenêutica” é um termo carregado de significado e de história. Originalmente, o uso lingüístico do “termo grego” situa-se num contexto religioso: o sentido de “proclamação” submetido a ermhneia que está implícito no nome de Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem se atribuía a invenção da linguagem. Assim, sendo esta a origem do termo no grego, desde o início está ligado com a divindade (ou os “deuses do Olimpo”).

O uso linguístico de ermhneia, mesmo fora do mundo clássico, continua dentro do âmbito da teologia cristã, característica essa que igualmente se verificava na antiga arte da “ermhneia intimamente vinculada à esfera sacral”. Foi Gadamer quem elaborou uma teoria da compreensão baseando-se nos trabalhos iniciados por Schleiermacher, Dilthey e Heidegger 4 tentando assim valorizar o preconceito (via de acesso aos conceitos). O preconceito significa, em Gadamer, uma pre-compreensão historicamente determinada que possibilita um primeiro acesso à compreensão mais aprofundada, como que, por exemplo, o fato de “o sujeito ao ver um objeto já conhecido, não precisar refletir sobre ele”. A partir daí, Gadamer irá falar da fusão dos horizontes, que seria o alargamento de nosso horizonte limitado mediante a compreensão do outro, por exemplo: o que me interessaria é meu ponto de vista, fazendo (realizando) uma fusão de horizontes (o meu e o do outro) para compreender.

A fusão dos horizontes nos interessa enquanto nos possibilita a abordagem ética como análise acerca desta proposta de leitura. A Hermenêutica carrega consigo uma bagagem teórica e de significação estritamente absorvida desde uma cultura e tradição. Contudo, nosso modo de pensar e interagir com as culturas, e tudo o que refletimos no campo teórico das letras e das ciências, pode também demonstrar uma certa maneira de conceber um pensamento próprio, que mesmo nascente, pode tornar-se algo estritamente latente para a reflexão teológica. Disso tudo depende: onde estamos – lugar sociológico – e o campo epistemológico de onde iniciamos nossa reflexão, ou melhor: a partir de onde construímos nosso pensamento? Situamo-nos “dentro” de uma “cultura”, realidade, Latino-americana, ou “Ameríndia”. Estamos refletindo uma teologia que tem bases epistêmicas e hermenêuticas de acordo com o “chão comum” (realidade) de história e, por isso, em uma “construção local de saber e de apropriação de linguagem”, bem como de referenciais teóricos. Então, propomos aqui uma reflexão hermenêutico-teológica Afro-ameríndia, com base em uma epistemologia também contextual.

A proposta e o método do olhar hermenêutico: a etnografia e a metáfora do olhar-escuta como descortinamento

Pensando a própria teologia, concebendo-a metodologicamente a partir do quadro teórico de uma etnografia: não como mera produção de imagem e representação de/sobre o outro, mas na construção um olhar-narrativo, uma forma de mediação cognitiva e ética, relacionada, situada e que se movimenta junto a essa alteridade.

Sabemos dos contextos, históricos, sociais e políticos em que vivemos envolvidos no decorrer de séculos, desde um tal “descobrimento”, que seguiu a corrente da “era colonial”, implicando vários processos de “encortinamento”, ao invés de “descobrimento”. Esse desvelamento, que não ocorreu e poderíamos chamar de uma “encurtação”, pois encurtou-se a reflexão, colocou-se limites à compreensão sobre o outro, sobre o mundo, enfim o cosmos, incutindo até mesmo uma compreensão acerca dos povos nativos como “sem cultura” – “sem alma” e até chegar a um outro processo no qual se escreveu a nossa história (de Escravidão, de marginalização, de expropriação de cultura, de saber, de linguagem etc.) ainda destes povos nativos e transplantados. Portanto, a cultura é fundamental para este olhar hermenêutico 5, e a religião como parte fundante nesta mesma perspectiva. Conforme outro autor, abordando sobre o tema de uma Teologia desafiada: “o descobrimento das culturas e da religião como sua alma, é o responsável pela irrupção do pluralismo cultural e religioso. Neste ponto, o descobrimento das culturas, no dizer de Mircea Eliade, seria o maior descobrimento do século XX”6. Seguindo o viés desta nossa reflexão e dos processos presentes na história do pensamento teológico latinoamericano, precisamos nos perguntar: onde estão estes povos que fizeram a história do Brasil ser mais rica de sentidos, significados (de cultura, de linguagem e de sabedorias)? Onde estão situados? A partir de onde poderíamos situar as raízes desta teologia ou da sabedoria latino-americana, afro, indígena? Até onde esses povos estiveram envolvidos pelo “ocultamento”, ou “encobrimento” 7 de suas “culturas”? Através daquilo que percebemos pelas várias formas de opressão, como construir-se em solo brasileiro uma legitimação de outros saberes ditos não-oficiais? Como partir por uma metodologia que favoreça um olhar diferente para esses “Outros” que se mantiveram “na marginalidade”? Assim, Leonardo Boff, no livro organizado por Paulo Suess, Culturas e Evangelização, reflete sobre a cultura do opressor versus a cultura do oprimido, e exatamente nesta nossa análise situaríamos outra pergunta para a teologia: Afinal, qual é a teologia do opressor e qual a teologia do oprimido? Em que referenciais teóricos, hermenêuticos podem estar situadas? No nível político se dão relações sociais de poder que se apresentam como autoritárias, ditatoriais, carismáticas, democráticas, relações que podem ser de apropriação, expropriação, controle, consolidação ou enfraquecimento de interesses, imposição de princípios reguladores de condutas de grupos sobre outros. É aqui que apontam os conflitos nas culturas, havendo culturas dominantes, culturas subalternas, culturas do silêncio, culturas populares etc. Não captar os conflitos dentro das culturas, particularmente nas nossas históricas que são culturas da desigualdade, é mascarar um dado fundamental que é decisivo para um processo de libertação e uma autêntica evangelização 8.

Podemos citar alguns casos tristes e cruéis da história, em que se fundou “sistemas” e “lógicas de dominação”, em que se prevalecia a “uniformidade”, a “exclusão como processo de seleção de seres-humanos”, a “eugenia” pregando a superioridade de uns sobre outros, bem como a xenofobia como medo, aversão e intolerância em oposição e rejeição do “outro” que é diferente em sua concepção de mundo, cultura, religião, existência (do “ser-aí-no-mundo” chamado como dasein por Heidegger). Porém, a corrente do pensamento formal elaborou postulados que também corroboram para nossa análise. Por exemplo, Gadamer iria considerar o seguinte:

Todavia, apesar de toda a densidade da experiência, o que significa propriamente “ser” para aqueles que foram educados no pensamento ocidental e em seu horizonte religioso é obscuro. O que significa a expressão “isso está aí”? Trata-se do segredo do aí, não daquilo que é aí, mas do fato de o “aí” ser. Isso não visa a existência do homem, tal como na expressão sobre a “luta da existência”, mas ao fato de no homem o aí se descortinar e permanecer ao mesmo tempo velado em toda abertura 9.


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