segunda-feira, 29 de agosto de 2011

INTERPRETAÇÃO AFRODESCENDENTE DA BÍBLIA E A PASTORAL

por Reinaldo João de Oliveira
(Mestre em Teologia Sistemática) in Artigo: Teoafricanidades em diálogos e perspectivas.

As interpretações bíblicas para a reflexão teológica são fundamentais como ‘refontização’. Elizabeth S. Fiorenza abordou recentemente em uma de suas obras, crítica e metodologicamente, a política interpretativa dos textos bíblicos. Ela menciona a codificação racista em termo de cores: Jesus branco sobre um pano de fundo preto – elaborado como uma compreensão de Heine acusando de que retrata Jesus enquanto pregador itinerante, sob uma “clara luz” a fim de contrastá-lo com as trevas patriarcais da sociedade judaica de sua época. Elizabeth se baseia numa visão mais analítica kyriárquica, que concebe existente um sistema que ainda prevalece sob o caráter da mistificação ideológica dos sistemas ocidentais de dominação, presente na filosofia clássica – aristotélico-tomista (in Fiorenza, 2005, p. 147.). Embora a autora tenha se detido falar sobre a política da interpretação do “Jesus Histórico”, ela abre uma fenda na questão das “escolhas” para modelos e pesquisas, onde se estuda e se crê na perspectiva dos fundamentos. Basta os olhares críticos sobre os textos bíblicos para perceber que as realidades não exploradas hoje, também fazem parte de determinada política de escolha. Quando entendemos a importância que há de se resgatar a identidade e as raízes de um povo que viveu processos de escravidão e de ‘diásporas forçadas’, sabemos que na postura de uma liderança está um papel muito importante, até profético. Este é um jeito de ler na história onde se rompe a corrente de transmissão fidedigna da palavra de Deus revelada com a implicação da exegese. Para resgatar o que se perdeu no caminho, e que ainda se perde – quando há possibilidade de construírem-se caminhos que buscam incluir ao invés de excluir, coibir (como muitas políticas que servem para justificar mais a opressão do que a libertação). Assim para contextualizar uma realidade histórica brasileira, do ensino, ou de catequização dos costumes, utilizaram-se de imagens bíblicas, justificando a escravidão dos negros, deixando evidenciado uma política de interpretação reconhecidamente opressora.

Livro: Jesus e a política da interpretação. De: Elisabeth Schüssler Fiorenza.

Em nossa perspectiva de leitura das fontes bíblicas, podemos nos perguntar através dos Evangelhos, como iluminação: se sabemos que ao pregar o Reino de Deus, Jesus privilegia os pobres e os excluídos do seu tempo. E hoje, nas leituras que se fazem a respeito, percebemos com evidência quais os rostos mais pobres e sofredores... Como reflete a análise da V CELAM – de Aparecida – estes rostos estão reconhecidos os indígenas e os afro-americanos entre os mais pobres, excluídos, explorados e até tratados pela sociedade do consumo capitalista como “supérfluos” e “descartáveis” (Ronaldo Muñoz, 2010, p. 102.).

 Livro: A missão em debate: provocações à luz de Aparecida. Artigo citado de: Ronaldo Muñoz. A opção pelos pobres como expressão da autenticidade da missão.

Nestas leituras “em perspectiva do olhar a partir da negritude”, como afirmam alguns teóricos, um importante meio para apresentar verdades esquecidas, ignoradas - não descritas - por estudiosos e líderes de comunidades em suas ações pastorais? Poucos diriam, a partir da reflexão sobre Evangelho de Mc 14, que Simão Cirineu seria um africano, e que pelo fato significativo de ter o seu nome e o de seus filhos explicitados no texto, tem importância fundante. Este não seria um dos sentidos do resgate identitário representado na Soteriologia, como estudo? Lemos, também, um exemplo de ação apostólica (pastoral) na carta dos Atos dos Apóstolos, em viajem missionária, que Filipe encontra-se com um Etíope que lhe pede explicações sobre um trecho do Profeta Isaías, o qual lia pelo caminho, conforme relata o capítulo oitavo, e depois pede o Batismo.
Ainda, nas fontes bíblicas, podemos ler que dentre os doutores que autorizaram a vinda de Paulo e Barnabé para o Ocidente estavam aqueles que foram, antes deles, os responsáveis pela transmissão da Palavra naquele contexto original da experiência da revelação cristã fundante “afro-asiática” (cf. At 13, 1-3), em Antioquia. E, ainda, segundo a explicitação da exegese (trad. Bíblia de Jerusalém), estes doutores, provavelmente judeus helenistas, eram habilitados ao ensino moral e doutrinal da Igreja primitiva (ver em At 11,27s e 1Cor 12-14s). Porém, não é necessário pinçar personalidades africanas na Bíblia, que não é o suficiente. Mas é necessário aprender a ler a Bíblia com olhares a partir da nossa coerência histórica e com o nosso jeito, sem precisar renunciar o que existe de autêntico em nossas interpretações. É uma forma inegável de se buscar questionar os escritos, em suas interpretações (inclusões e exclusões), na exegese dos textos, nos discursos e leituras. Podemos, com isso, entender melhor os espaços africanos na Bíblia. Ler a Bíblia tendo presente suas várias possibilidades, óticas até aqui não tão exploradas, como perspectivas de leituras teológicas, como atitudes coerentes.
É possível ler o texto e perguntar se antes já havia “segregação” nas comunidades dos discípulos? É perceptível que a comunidade cristã era constituída também por profetas e doutores africanos, em Antioquia (cf. At 13), onde inicia o movimento Cristão, para depois ir com Paulo e Barnabé à outros lugares. É bom que se pense, na dimensão do resgate e da auto-estima, que a questão dos conflitos étnicos e religiosos certamente foram suscitados, porém não problematizados como hoje: no aspecto racial, ideologicamente. Já antecipamos em outro diálogo este problema. Na dimensão social foram reproduzidas concepções distintas sobre raças, carregadas de ideologias: como a teoria raciologista, já há tempos superada pela própria genética. E há outras formas possíveis de se pensar como realizar uma política interpretativa de inclusão, a partir do resgate de textos em fontes cristãs, realizando também em outras tradições até mais antigas de que o próprio cristianismo (cf. Nm 12; Ex 15,20).
O grupo do povo de Israel foi também migrante pela África, onde percorreu durante séculos e a própria história da humanidade atesta ser o “lugar” de origem dos povos da terra. Podemos fazer uma leitura bíblica sobre o livro de Êxodo 15, 20, relacionando ao contexto de celebração, liturgia, perguntando sobre nossas origens rituais, onde se canta e se dança utilizando tambores, tamborins... Esta era uma liturgia muito importante na História do Povo de Israel - O Canto de saída do povo da África, nas regiões do Egito, bem como representantes de povos como Efraim e Manassés – cenários de grandes episódios e personagens da Genealogia no primeiro Testamento (histórias de Abraão, Sara, Agar, Esaú, Isaac, Jacó, Moisés, Elias etc.). Assim, como um aprofundamento para pensar as origens ou re-significar os mitos antigos em símbolos culturais, étnicos e religiosos (cf. Gn 2; Cântico dos cânticos 1, 5).
Até em outras tradições religiosas de origens africanas e afrobrasileiras podemos pensar a Teologia, sobre os temas do Monoteísmo, Eleição e Revelação de Deus, nestes contextos (Afonso Maria Ligório Soares 2006, pp. 91-107.).

Livro: Negra sim, negro sim, como Deus me criou – Leitura da Bíblia na Perspectiva da Negritude. Artigo/Destaque de: Afonso Maria Ligório Soares. Teologia da revelação e negritude.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS FONTES

Para pensarmos e desenvolvermos nossa reflexão numa ótica de teoafricanidade, podemos e devemos começar valorizando as culturas que constituíram-se particularmente dos povos nativos e dos transplantados a este continente latino-americano. Não podemos nos omitir em buscar valorizar as culturas, as experiências de fé, religiosa, e a própria dimensão pastoral e teológica sobre cada um destes pontos. Afinal, não seria esse (de resgates) um dos sentidos para o “fazer teológico” latino-americano e afro-brasileiro?
O diálogo que buscamos assumir, neste sentido, favorece um olhar para o interior das culturas como espaço (ou lugar) de reconhecimento e legitimação, que é uma exigência para situarmo-nos no mundo contemporâneo.
A reflexão que desenvolvemos para se pensar uma epistemologia, que passe por uma hermenêutica, a dimensão teológica africana, afroamericana como “lugar” e “casa” que abriga o pensamento reflexivo e vivencial de “olhar-escuta” e “saber” aprendente e comunicativo.
Para tanto, o método que nos desafiamos não necessitam renunciar o que já se construiu, mas abre-se neste “alargamento” para o que vem, sem precisar romper os horizontes, mas estendê-los. Importante ressaltar que neste sentido o “onde estamos” determina o nosso pensar. Não apenas a “compreensão” do outro, mas a relação com este. Assim, um caminho possível está em inserir, na produção teológica, o resgate dos elementos culturais e narrativos como alternativas de atitudes para ações pastorais.
Também na perspectiva da práxis do Ensino, voltado para as identidades e os caminhos da missão, todos os olhares para a história dos povos, incluindo as que não foram devidamente contadas – e que por isso permanecem na marginalidade da oralidade do povo.
As outras formas de leituras e interpretações vêm contribuir para atitudes práticas de empoderamentos bíblicos, litúrgicos, mas também sociais. Este projeto nasce como uma forma de valorização das pessoas, na relação com a Palavra de Deus nas comunidades e nos grupos que se inspiram com os conteúdos desenvolvidos pela teoafricanidade, como desafio ao diálogo e outras perspectivas.

 

sábado, 20 de agosto de 2011

Por que a Democracia na África é uma questão estratégica?

Prof. Dr. Ivair Augusto Alves dos Santos

Estamos habituados pela mídia a ver o continente africano como território de tragédias e de más noticias, onde a violência, a corrupção e o genocídio como eventos exclusivos daquele continente. Infelizmente questões como genocídio fazem parte da realidade da Europa, da Ásia e das Américas.
Como estão os Governos africanos? Há dados que indicam que a economia cresce de maneira geral, com diferenças entre os paises, mas a economia não pode ser vista como o único item. {Para falar sobre isto} hoje utilizamos uma expressão chamada de governança.
A definição geral de governança “é a maneira pela qual o poder é exercido na administração dos recursos sociais e econômicos de um país visando o desenvolvimento”, implicando ainda “a capacidade dos governos de planejar, formular e implementar políticas e cumprir funções”.
A capacidade governativa não é avaliada apenas pelos resultados das políticas governamentais, e sim também pela forma pela qual o governo exerce o seu poder. Uma boa governança só é possível num regime democrático que respeite os direitos humanos.
A criação de um sistema nacional fiscal comprometido com a cidadania é fundamental na construção da capacidade do Estado de melhoria das condições de governança e, simultaneamente, serve para reforçar o elo de responsabilidade entre eleitores e liderança. Vale ressaltar que, enquanto a boa governança é uma condição sine qua non para o desenvolvimento, seu papel na prevenção de violência também é observado.
Um regime democrático não se resume a realização de eleições de forma regular, planejada, com ampla participação, o respeito aos direitos humanos, e os direitos das minorias também deve ser observado.
Hoje, as eleições são realizadas em quase toda parte, com raras exceções, como a Eritréia. Até mesmo os líderes autoritários, como Robert Mugabe, do Zimbábue, e Hassan Omar Al-Bashir, do Sudão, realizam eleições, embora a sua validade seja geralmente contestada.
Mas será que as eleições realmente “curam” uma sociedade dividida? Sem dúvida, o trabalho das instituições democráticas pode desempenhar um papel crítico e construtivo. Mas, alguns lugares do mundo há falta delas - com os parlamentos fracos, tribunais disfuncionais, uma mídia paralisada.
As eleições acabam podem piorar as coisas, por várias razões. Primeiro, as eleições têm um "nós contra eles" dinâmico, que muitas vezes agrava os conflitos sociais com os políticos, tentando mobilizar simpatizantes em torno das diferenças, como no Quênia em 2007, onde a violência pós-eleitoral deixou um saldo de muita violência. Os eleitores precisam acreditar que as eleições inaugurarão um período de rotatividade dos líderes, pois muitas vezes os lideres se vêem eternos, sem uma história democrática, as tensões sociais podem subir.
Outros aspectos da democracia são, indiscutivelmente, mais importantes do que eleições. O Federalismo - a distribuição de poder às autoridades regionais ou locais é uma importante inovação estrutural que pode promover a paz no Congo ou em outros países Africanos.
É claro, o federalismo é geralmente resultado de complicadas negociações entre os líderes nacionais e regionais e que só entra em vigor durante um período de tempo. Exemplificando, as eleições nacionais na Nigéria têm sido problemática, pois a governança ainda é pobre a distribuição de poder junto aos estados foi destruída por conflitos regionais.
A questão do Federalismo em África é importante no reconhecimento do papel das lideranças regionais, mas é bom lembrar que isto não se deve ao tribalismo, como alguns procuram simplificar uma situação tão complexa. Imaginem o país como o Brasil, os Governadores de Estado não tivessem poder de influencia que tem sobre o Governo Federal o país seria ingovernável.
Por muito tempo a imagem de África esteve ligada a corrupção de governo, a guerras e as doenças. Notícias econômicas também sempre foram más. De 1975 a 1995, o continente atolado em conflitos e com crescimento do endividamento e hiperinflação. Agora a história está mudando. Durante os últimos 10 anos, seis das economias que mais cresceram no mundo África Sub-Saariana., nos próximos cinco anos, a República Democrática do Congo, Etiópia, Gana, Moçambique, Nigéria, Tanzânia e Zâmbia podem crescer a uma média acima de 7,2 por cento ao ano.
Durante este período, a economia média Africana vai superar sua contraparte na Ásia. África tornou-se um importante mercado emergente e, em comparação com outras regiões, tem uma taxa relativamente alta de retorno de investimentos.
Em muitos países, a reforma política tem acompanhado o crescimento econômico, permitindo que os empresários locais prosperem. Prevê-se que 2030, o numero de consumidores em África chegue a 300 milhões de pessoas com um potencial de consumo de 2.200.000.000.000 $ por ano, o que equivale a cerca de três por cento do consumo mundial, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento.
China é uma das muitas nações que se anteciparam. Suas empresas estão fazendo negócios em cada um dos 54 países da África. Comércio entre China e África vai quase triplicar para US $ 300 bilhões até 2015, de acordo com o Standard Bank da África do Sul. Empresas da Índia e do Brasil também estão em busca de oportunidades comerciais em todo o continente. A União Européia está agressivamente negociando acordos que darão às empresas o acesso da UE ao mercado Africano. As empresas dos EUA têm sido lentas, no entanto, reconhecem o potencial da África. A última vez que um secretário de Comércio EUA havia visitado a região foi em 2002, quando Donald Evans era o Secretário. A secretária de Estado Hillary Clinton liderou uma grande delegação, em junho de 2011 para participar Forum Opportunity Act, em Lusaka, Zâmbia, em um esforço para aprofundar as relações comerciais com os EUA.
A maioria dos governos Africanos desenvolve estratégias para reduzir a pobreza, e isso levou a melhorias na saúde pública e educação. Líderes empresariais e organizações da sociedade civil, entre outros, estão contribuindo para um novo espírito de debate e de tolerância.
A mídia brasileira não acordou para estes fatos importantes.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

2011: Ano Internacional dedicado aos Povos Afrodescendentes*

* Reflexão a partir da Sexagésima quarta sessão pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, com pesquisas, acréscimos e aprofundamentos de Reinaldo João de Oliveira, em diálogo com grupos e personalidades de comunidades negras – em torno do tema exposto.



Segundo Navi Pillay, Comissária da ONU para os Direitos Humanos, “este Ano Internacional oferece uma oportunidade única para redobrar nossos esforços na luta contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e outras formas de intolerância que afetam as pessoas de ascendência africana em toda parte.” Porém, me instiga perguntar: Será? Como se daria isso?
Estima-se que 150 milhões de pessoas que se identificam como sendo de ascendência africana vivem na América Latina e no Caribe. Muitos outros milhões vivem em outras partes do mundo, fora do continente africano – em “Diásporas”, ainda que forçadas.


Quantas "Áfricas"?

A resolução da ONU afirma que ao proclamar o Ano Internacional, a comunidade internacional está reconhecendo que as pessoas de ascendência africana representam um setor específico da sociedade, cujos direitos humanos devem ser promovidos e protegidos. Porém, o que podemos refletir, é se tais direitos estão sendo promovidos adequadamente.



Constata-se na Declaração e no Programa de Ação de Durban que as pessoas de ascendência africana são reconhecidas como um grupo de vítimas específicas que continuam sofrendo discriminação, como legado histórico do comércio transatlântico de escravos. Mesmo afrodescendentes que não são descendentes diretos dos escravos enfrentam o racismo e a discriminação que ainda hoje persistem, gerações depois do comércio de escravos (eis a conseqüência do racismo para todos negros – como muitos depois a mencionaram como a “herança maldita”). Talvez este seja um dos motivos já sentidos e levados para fins de “levantes” em prol da comunidade negra, inspirando movimentos e grupos que sustentaram bandeiras, ideais e luta.


Um dos motivos apresentados pelo setor responsável da ONU, ao promover este ano como dedicado aos afrodecendentes, é o de buscar corrigir os erros do passado. Mirjana Najcevska, Presidente do Grupo de Trabalho das Nações Unidas de Peritos sobre Pessoas de Ascendência Africana, declarou que “este é o ano para reconhecer o papel das pessoas de ascendência africana no desenvolvimento global e para discutir a justiça para atos discriminatórios correntes e passados que levaram à situação de hoje”.
O racismo obsceno que foi a base do comércio de escravos e da colonização ainda ressoa hoje. Ele se manifesta de diversas maneiras, às vezes sutilmente, às vezes inconscientemente, como preconceito contra as pessoas com pele mais escura.
Para encontrar formas de combater o racismo, a ex-Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos criou o Grupo de Trabalho de Peritos sobre Pessoas de Ascendência Africana, encarregado de recomendar medidas para promover a igualdade de direitos e oportunidades. Foi criado em 2001 para analisar a situação e as condições de africanos e pessoas de ascendência africana, a fim de enfrentar a discriminação que elas sofrem.
O Grupo de Trabalho concluiu que alguns dos mais importantes desafios que enfrentam as pessoas de ascendência africana dizem respeito à administração da justiça e seu acesso à educação, emprego, saúde e habitação.
Em alguns países, embora possam ser uma minoria, as pessoas de ascendência africana constituem uma parte da população carcerária desproporcionalmente alta percentagem e recebem sentenças mais duras do que os da etnia predominante. O enquadramento racial – que resulta na sistemática segmentação de pessoas de ascendência africana por policiais – criou e perpetuou grave estigmatização e estereótipos dos afrodescendentes como dotados de uma propensão à criminalidade (aqui podemos discutir a tese – raciologista - de Du Bois, estendendo para Martin Luther King e outros líderes que se firmaram na causa da defesa dos direitos humanos e políticos da população negra).
Em muitos países com grande população de afrodescendentes, este setor da sociedade tem menos acesso e níveis mais baixos de educação. As evidências mostram que, quando as pessoas de ascendência africana têm maior acesso à educação, participam de forma mais igualitária em todos os aspectos políticos, econômicos e culturais da sociedade, bem como no avanço e no desenvolvimento econômico de seus países. Da mesma forma, elas encontram-se em melhores condições para defender seus próprios interesses.
O Grupo de Trabalho também constatou que os afrodescendentes sofrem de desemprego em um nível mais elevado do que outros setores das sociedades em que vivem e de acesso restrito à saúde e à habitação, muitas vezes devido à discriminação estrutural que está incorporada dentro de suas sociedades.
O Grupo de Trabalho salienta que a coleta de dados desagregados sobre a base da etnia é um aspecto importante de abordagem dos direitos humanos de afrodescendentes. As políticas de governo para combater o racismo e a discriminação não podem ser corretamente formuladas, muito menos aplicadas, se essa informação não estiver disponível.
Em forma de uma Campanha Global a Assembleia Geral da ONU proclamou 2011 como o Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes, citando a necessidade de fortalecer as ações nacionais e a cooperação internacional e regional para assegurar que as pessoas de ascendência africana gozem plenamente de direitos econômicos, culturais, sociais, civis e políticos.
Navi Pillay, Comissária da ONU para os Direitos Humanos, declarou que “O Ano Internacional deve se tornar um marco na campanha em curso para promover os direitos das pessoas de ascendência africana. Merece ser acompanhada de atividades que estimulem a imaginação, aprimorem nossa compreensão da situação das pessoas de ascendência africana e seja um catalisador para uma mudança real e positiva na vida diária de milhões de pessoas ao redor do mundo.”
O Ano visaria ainda promover a integração de pessoas de ascendência africana em todos os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais da sociedade, e promover maior conhecimento e respeito pela sua herança e cultura diversificadas. O Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes foi lançado no Dia dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 2010, pelo Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon.
Foi dado que o principal objetivo do Ano seria de aumentar a consciência dos desafios que as pessoas de ascendência africana enfrentam. Esperava-se, assim, que o Ano promovesse discussões com vários parceiros, e que estes proponham soluções para a questão. No entanto, o que estamos observando, é uma ausência e desconhecimento muito grande acerca destes aspectos levantados, até mesmo em vários grupos, espaços, onde a comunidade que luta e defende a causa afro.
Afirmaram os gestores neste programa que durante o ano de 2011 diversos eventos internacionais seriam realizados.  Contudo, pouco realmente foi feito. Apresentaram em 2 de março, em Genebra (Suíça), um painel de discussão com a participação dos Estados-Membros e da sociedade civil, onde abordaram questões de direitos humanos das pessoas de ascendência africana durante a Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Nesta mesma semana, em 7 de março, uma rodada de discussões, realizada pelo Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial, também em Genebra. Segundo as autoridades, essas discussões serviram para aumentar a conscientização sobre as causas e consequências da discriminação contra as pessoas de ascendência africana e promover a visibilidade de seus diversificados patrimônio e cultura.
Também em março, o Grupo de Peritos sobre Pessoas de Ascendência Africana discutiu formas de contextualizar o Ano Internacional, ilustrando o porquê de sua necessidade. Esta reunião foi realizada em Genebra de 28 de março a 1º de abril.
Segundo os organizadores, o Ano Internacional será encerrado em setembro próximo, com a convocação de um debate de alto nível sobre as conquistas das metas e dos objetivos do Ano, durante a sessão ordinária da Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
Firmaram que haverá uma coalizão de organizações da sociedade civil criada para promover o Ano. Esta, segundo eles, realizará memoriais, seminários, eventos culturais e outras atividades ao redor do mundo para sensibilizar a opinião pública sobre a contribuição dos descendentes de africanos ao patrimônio mundial, identificando os obstáculos que ainda precisam ser superados. Todos, e em particular as próprias pessoas de ascendência africana, são encorajados a realizar atividades para contribuir para o sucesso do Ano.



No Brasil, um relatório aponta desigualdades raciais. Assim, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), Fundação AVINA e HEIFER Internacional, lançaram o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010 em Salvador, Bahia, região Nordeste do estado brasileiro.
O relatório é uma publicação do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER) da UFRJ, que tem como coordenador o Professor Marcelo Paixão, também responsável pela pesquisa.
Segundo Marcelo, o relatório tem como eixo o tema das desigualdades e monitoramento através dos indicadores econômicos, sociais e demográficos e "servirá de base para monitorar as construções das políticas públicas raciais no país". O relatório quer também observar os avanços e recuos existentes no Brasil em termos de igualdade em todos os níveis.
Para Marcelo, "o relatório tem que ser conhecido e amplamente divulgado em todo país". Ele foi lançado em Porto alegre, na semana passada, Rio de janeiro, Salvador, e na próxima semana em São Paulo. "Trata-se de um trabalho acadêmico, no entanto, suas informações falam não somente de dados, mas de vidas", afirma.
O relatório aponta questões como: evolução demográfica da população brasileira segundo raça e cor; perfil da mortalidade; desigualdade de cor ou raça no acesso a educação; desigualdade no mercado de trabalho; condições materiais de vida e acesso ao poder institucional, políticas públicas e marcos legais.
O material é sugerido aos estudiosos do tema, ativistas do movimento negro, dos movimentos sociais diversos e entidades afins. Contém 83 gráficos, 90 tabelas, 37 boxes, 10 quadros e 13 mapas.
A coordenação do laboratório sugere que outras instituições tomem a mesma iniciativa, elaborando um relatório das desigualdades no seu estado. Outra sugestão é se cadastrar no fichário eletrônico das desigualdades raciais, no site do laboratório http://www.laeser.ie.ufrj.br/, e buscar os grupos indicadores.

Simplificando estes dados, alguns casos de Desigualdades no Brasil exemplificam tamanha desigualdade existente no país, na área da saúde, por exemplo, os índices de mortalidade infantil revelam que para cada mil crianças nascidas vivas 37,3 são brancas e 62,3 negras morrem antes de completarem um ano. Para os casos de violência, a taxa de homicídio entre os brancos é de 38,1%, e para os negros 52,6% na faixa etária entre 15 e 25 anos. Os dados são do site Mundo Negro, entre outras pesquisas que fizemos. Contudo, muitas outras estatísticas são mencionadas e podem ser conferidas pelos Censos Nacionais, além de outras pesquisas que deixam evidentes a implicação de um sistema excludente para a população negra.
Neste Blog há um artigo de Sueli Carneiro, que apresenta outros dados e reflexões sob este enfoque, com o título de RAÇA, CULTURA E CLASSE NO BRASIL.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Belo Monte: Desobediência Civil, Violência e Religião

por Rosalvo Salgueiro, coordenador do Serviço Paz e Justiça SERPAJ-Brasil

Todo governo, por mais poderoso e avassalador que seja só se sustenta se tiver a aquiescência e a colaboração dos governados, por outro lado, a legitimidade e autoridade de um governo não residem exclusivamente em sua legalidade, mas também e principalmente na justiça de suas práticas e busca verdadeira do bem comum das suas decisões.
O cidadão antes de ser súdito é ser humano e como tal tem a orientar sua vida e seu proceder não apenas as leis e as ordens escritas emanadas pelos poderes e constituídos. Deve ele em primeiro lugar obediência à própria consciência que se funda em leis morais, éticas e religiosas, e porque não dizer, culturais. Assim, antes de obedecer cegamente uma lei ou uma ordem está o ser humano obrigado a se perguntar pela justiça e a moralidade do ditame a ser obedecido.
Há quem sustente que a desobediência civil seja um ato egoísta e um golpe mortal na democracia, e um desrespeito ao governo da maioria. Não se pode olvidar que a democracia não é apenas o governo da maioria. É isto sim, o governo da maioria, mas respeitando e defendendo o direito da minoria. Destarte, não apenas os governos manifestamente tiranos e ditatoriais podem ser legitimamente desobedecidos, mas todo governo ou autoridade que profira leis ou ordens injustas e que violentem a consciência das pessoas ou os direitos naturais.
Ao longo da história da humanidade, muitas foram as ocasiões em que se praticou desobediência civil, em todos os casos os acontecimentos futuros legitimaram essa prática.
Comumente se reconhece como precursores e expoentes da desobediência civil, o ativista americano do século 19, Hanry David Thoreau, que é tido como o sistematizador dessa prática, também são lembradas e aplaudidas as ações do líder indiano e profeta da Não-Violência Mahatma Gandhi, e do pacifista negro americano Martin Luter King.
Na maioria das culturas podem ser encontrados esses momentos. Na Bíblia, entre tantas, temos a história das parteiras Fua e Séfora que desobedeceram ao Faraó que lhes ordenara que matassem os filhos varões das mulheres hebréias (Ex 1, 15-22).
Desobediência Civil é diferente de manifestações populares e a pressão legítima que se exerce contra determinado ato do poder constituído para que atenda determinada reivindicação. Para haver a desobediência é necessária existência de uma autoridade, uma ordem ou uma lei injusta a ser afrontada, à qual, pelo menos em tese se deveria obedecer.
O dever de obediência reside na justiça e não a legalidade! Todo governo injusto e imoral que não oriente suas leis e ações na busca do bem comum e não se mostre sensível às reclamações, reivindicações e à participação democrática, deve ser desobedecido, ter a legitimidade contestada e a cooperação negada. A desobediência deve ser pública e de forma não-violenta.
Na America Latina mesmo depois da redemocratização e da eleição de governos chamados de “esquerda” há muitos casos em que não resta à população outra alternativa que não seja a prática efetiva da desobediência civil.
Na Nicarágua, o estilo autoritário do presidente Daniel Ortega, assim como sua prática de perseguir adversários políticos, está levando antigos companheiros de Revolução Sandinista a apoiar e praticar a Desobediência Civil, como é o caso do padre Ernesto Cardenal, do ex-comandante Sérgio Ramires, da defensora dos Direitos Humanos Vilma Nuñes, do cantor e compositor Carlos Mejia Godoy e tantos outros.
Na Argentina, o Prêmio Nobel da Paz e presidente internacional do SERPAJ-AL, Serviço Paz e Justiça na América Latina, Adolfo Pérez Esquivel juntamente com outros intelectuais lideram lutas contras a mineração de ouro a céu aberto e outras agressões ao meio ambiente. Adolfo Esquivel diz: “... não apenas somos a favor da desobediência civil como a temos praticado, não apenas contra as mineradoras, mas também contra a destruição dos bosques e a violação dos Direitos Humanos na Argentina e por toda a America Latina...”
No Brasil, o governo Lula retomou um projeto da época da Ditadura Militar de construir na Amazônia uma série de mega usinas hidrelétricas, sendo a primeira delas, a Barragem de Belo Monte, no Rio Xingu, no Estado do Pará. Esta será a terceira maior hidrelétrica do mundo, ficando atrás apenas das Três Gargantas na China e da Itaipu Binacional, Brasil/Paraguay. Para uma produção de 11.223 Mw, que devido ao regime de chuvas local, será alcança somente durante quatro meses por ano, no mais terá uma produção sustentada, não superior a 4.700 MW, essa barragem vai criar um lago de 516 km² cobrindo a floresta, além da construção de dois canais de 500 metros de largura por 35 km de comprimento cada um, maior que o canal do Panamá, em plena selva amazônica. Esses canais desviarão o rio do seu curso natural convertendo-o num filete d’água em uns trechos e completamente seco noutros, numa alça mais de 100 quilômetros do Xingu conhecida como Volta Grande.
A construção já foi contratada no dia 20 de abril último, em Brasília, por 19,6 milhões de reais, por meio de um conturbado processo de licitação que envolveu muitos embargos e recursos judiciais, e que culminou com um leilão em que da apresentação, leitura das propostas, suas avaliações, proclamação do resultado e encerramentos levaram tão só sete minutos. Tudo sob intensos protestos de grupos indígenas, ONGs naturalistas e de Defesa dos Direitos Humanos.
Segundo José Ailton de Lima, diretor de energia e construções da CHESF - Companhia Hidroelétrica do São Francisco, empresa que lidera o consórcio ganhador do leilão, os trabalhos começarão em no máximo seis meses, tempo necessário para atender algumas exigências burocráticas. A obra vai atrair para região mais de 100 mil pessoas entre trabalhadores diretos e infra-estrutura de apoio, que certamente demandarão mais áreas da floresta que também serão desmatadas para sua instalação.
Para dar lugar ao lago serão removidas mais de 20 mil famílias que vivem na região, inclusive da zona rural de Altamira. Esta barragem vai modificar profundamente o estilo de vida e atingir pelo menos 15 etnias indígenas, inclusive algumas isoladas, (ainda não contatadas pelo homem branco) que vão perder suas áreas de caça, pesca e cultivo, e serão obrigados a abandonar suas terra e seus lugares sagrados onde vivem em harmonia com a natureza, praticam sua cultura, sua religião, e cultuam seus ancestrais.
A comunidade científica brasileira e internacional têm demonstrado de maneira cabal que o Brasil tem muitas outras e melhores alternativas para gerar energia, inclusive com menor custo, que vão da a re-potenciação das hidrelétricas antigas, a otimização da capacidade já instalada até a utilização do potencial eólico e solar que são abundantes no país.
A Igreja através de Dom Erwin Kräutler, bispo de Altamira a principal cidade da região e presidente do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), e mesmo da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), assim como, as lideranças indígenas e os movimentos ambientalistas têm feito todo esforço para convencer o presidente Lula e seu governo dos enormes prejuízos sociais e danos ambientais que essa barragem trará, alertando para as graves conseqüências não só para a população local, mas que também contribuirá fortemente para o aquecimento global e provocará alteração climática prejudicando todo o planeta.
O diálogo com a comunidade indígena, nesses casos, é uma obrigação prevista na Constituição Federal do Brasil em seu artigo 231 e só teve início por imposição do poder judiciário, e ainda assim aconteceu de “mentirinha”, tudo já estava definido antes das consultas, o que se viu foi uma tremenda manipulação e feroz brutalidade do governo ao impedir que os verdadeiros e reconhecidos líderes indígenas participassem livremente do processo de consultas, essa prática foi amplamente denunciada na ocasião, pelos caciques Raoni Metuktire e Megaron Txucarramãe, assim como pelas organizações não governamentais e a Igreja. Além da constituição de seu país, Lula desrespeita também tratados internacionais como Convenção 69 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que o Brasil assinou se comprometendo a obter o consentimento prévio dos indígenas antes de tomar medidas que os afetem diretamente.
O governo brasileiro, através da Resolução nº 102, de 13 de abril de 2010, do Conselho da Justiça Federal (CJF), criou às pressas a 9ª Vara Federal Ambiental e Agrária da Capital do Estado do Pará, que será especializada em julgar questões agrárias e ambientais retirando assim do juiz de Altamira, que tem reconhecido o direito dos índios e ribeirinhos, a competência para julgar os assuntos relacionados com construção da Barragem de Belo Monte. Casuísmos como este, configuram uma clara manipulação do poder judiciário brasileiro.
Ao se fechar para o diálogo, inclusive violando a Constituição do País, e manipulando o Poder Judiciário, o governo não deixa à sociedade outra alternativa de ação além da desobediência civil.
Nenhum governo pode simplesmente tomar suas decisões e fazer suas obras ao arrepio da lei e da opinião pública, ele precisa sempre se justificar e tentar ganhar os corações e as mentes dos cidadãos, principalmente em tempos de eleição.
Se as pessoas e movimentos sociais e ambientais que se opõem a essa barragem conseguirem mostrar para o conjunto da sociedade, inclusive a nível internacional o desastre que essa obra significa, puxando a opinião pública para o seu lado, que hoje em razão a insignificante cobertura dos meios de comunicação ignora os fatos, há chances efetivas de forçar o governo a voltar atrás ou pelo menos adiar essa tragédia.
A região aonde vai ser criado o lago abriga uma extra-ordinária biodiversidade cujas espécies se contam às centenas, sendo que algumas estão ameaçadas de extinção e outras são endêmicas (só ocorrem ali) existem também muitas espécies que ainda nem foram catalogadas e que se perderão para sempre.
O EIA (Estudo de Impactos Ambientais) feito pelo próprio governo dá conta de que ali já foram encontrados e catalogados: 174 espécies de peixes, 387 de répteis, 440 de aves e 259 de mamíferos, sem se falar dos insetos, fungos e todas as espécies de vegetais.
Cobrir com água a floresta é mais grave que simplesmente queimá-la, pois a decomposição de corpos orgânicos submersos tira o oxigênio da água e emite gás metano (CH4), para a atmosfera e provoca o aquecimento global, e é extraordinariamente mais prejudicial que o dióxido de carbono (CO²), que é o gás emitido na queima de materiais orgânicos e combustíveis fósseis.
Existe um embate midiático a ser travado, quem levar a melhor nessa área vencerá esse confronto. Cabe aos movimentos planejar eventos e criar fatos que sejam notícias, e que os meios de comunicação de massa não possam ignorá-los ou esconde-los, ainda que o queiram.
A causa é nobre e tem conseguido mobilizar personalidades importantes de todos os setores sejam da política, das artes, e das religiões, como é o caso do senador Pedro Simon entre outros, do cineasta e diretor da mega produção e mega sucesso hollyoodiana Avatar, James Cameron e o cantor de rock o inglês Sting, do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, assim como de expressivos teólogos da libertação como os brasileiros Frei Betto e Leonardo Boff, além de cientistas mundialmente conhecidos como Célio Bermann e Paulo Buckup, e muitos outros, ainda falta, entretanto, ganhar mais espaço nos meios de comunicação, que na verdade é quem faz a opinião pública.
Numa relação de injustiça a solidariedade vem sempre em favor do injustiçado, assim o movimento precisa ter o cuidado de não sair desse pólo da ação, deixando-o livre para ser assumido pelo governo, coisa que o presidente Lula sabe fazer muito bem.
Muitas são as ações concretas que os movimentos podem lançar mão, é importante que sejam fortes e impactantes e que possam facilmente ser compreendidas e aceitas pela população para que então, responda de forma solidária.
Como a primeira ação concreta de desobediência civil nessa luta, após a conclusão do processo de licitação, que foi o leilão realizado pelo governo do dia 20 de abril último, liderados pelo cacique kayapó Megaron Txucarramãe indígenas do Parque Nacional do Xingu paralisaram o serviço de travessia da balsa no Rio Xingu.
Os líderes indígenas encaminharam um comunicado ao comando da Polícia Militar de São José do Xingu explicando a ação. “A gente quer fazer um movimento pacífico e por isso pedimos ajuda para que a polícia não deixe os carros descerem para usar a balsa.”
Na correspondência eles informaram que o fechamento da travessia do Rio Xingu é por tempo indeterminado e deixam claro que o motivo do protesto é devido ao leilão realizado de Belo Monte (hidrelétrica do Rio Xingu) da qual não se aceita que o governo mantenha a construção.
A carta aberta do cacique Megaron ao presidente Lula deixa claro os objetivos e a disposição dos índios: “Nós não somos bandidos, nós não somos traficantes para sermos tratados assim, o que nós queremos é a não construção da barragem de Belo Monte. Aqui nós não temos armas para enfrentar a força, se Lula fizer isso ele quer acabar com nós como vem demonstrando, mas o mundo inteiro vai poder saber que nós podemos morrer, mas lutando pelo nosso direito.”
Muitas outras ações podem ser realizadas, tais como a recusa decidida e consciente das pessoas em deixar suas terras para dar lugar ao lago, ou mesmo a ocupação dos canteiros e escritórios das empresas impedindo assim o avanço das obras. Cada ação deve ser analisada e assumida no momento, e da forma que se considere estratégicos para a sua prática.
Aqui estão presentes todos os elementos que justificam a desobediência civil, estão presentes: a causa justa, a autoridade arrogante, a lei e a ordem injusta que deve ser desobedecida, o povo consciente organizado e disposto a resistir, a articulação nacional e internacional. Falta ainda melhor articulação com a mídia.
A luta contra essa barragem de Belo Monte tem, pois, todos os ingredientes e as possibilidades de ser a maior experiência de desobediência cível da história na América Latina, com reais possibilidades de ser vencedor e um marco histórico na luta mundial para a salvação do planeta.

(Texto publicado originalmente no site do SERPAJ-Brasil - * Esse texto foi publicado na revista canadense Relations, nº 744, em novembro de 2010, tratando a temática Violência e Religião.)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Quais as verdadeiras "prioridades" do mundo?

A seguinte Charge foi publicada nesta quinta-feira pelo jornal Inglês, The Times of London”, que pertence ao conglomerado de mídia do magnata Rupert Murdoch, acusado pelo escândalo internacional de "escutas de telefone" que beneficiou o seu jornal... Nesta edição, essa polêmica charge que logo depois causou um alvoroço de várias manifestações pela rede...

Charge publicada pelo jornal britânico

O desenho, intitulado “Prioridades”, retrata crianças somalis desnutridas, e uma delas diz: “I’ve had a bellyful of phone-hacking” (em tradução livre, “estou com a barriga cheia de escutas telefônicas”). Há alusão a dois acontecimentos atuais - de um lado, o escândalo deflagrado no jornal “News of the World”, de Murdoch, cujos funcionários usavam grampos ilegais para obter informações em primeira mão sobre celebridades, políticos, etc., e, de outro, a maior seca das últimas cinco décadas nesta detalhada região da África, que deixou milhares de crianças desnutridas.

Fato é que os meios de comunicação do mundo inteiro têm dado grande destaque à crise no império do magnata em detrimento de outros acontecimentos tão importantes quanto, mas, após a reprodução dessa charge, com a ironia do jornal e de vários outros jornalistas, pelo mundo, alguns mencionaram uma tentativa de fazer com que os leitores desviem a atenção do escândalo britânico.

Detalhe importante a ser destacado:

A fome na Somália tem pouquíssimo a ver com as secas lá ocorridas ultimamente. Tudo poderia ser resolvido com irrigação e, de emergência, alimentos e sementes levados por via aérea. A situação na Somália é, basicamente, fruto de manobras internacionais, que querem o controle de um ponto estratégico,por onde passam dez por cento dos petroleiros, e o controle de minerais estratégicos. É que quase ninguém lê a recente  história (dos últimos 200 anos), das devastações que os paises colonizadores fizeram e ainda fazem na África, e noutros continentes. A pesca predadora é praticada impunemente nas costas da Somália, sem que o fraquíssimo governo local possa fazer nada. Quando tentaram fazer, o Reino Unido, a França e outros fortes paises enviaram lá vinte mil soldados e numerosos bombardeiros, para garantir o "trabalho" dos piratas do Ocidente, e ainda chamaram os voluntários guardadores das costas somalis de piratas.

O que é preciso saber sobre a situação da Somália e os chamados piratas, pelo seguinte documentário - que foi publicado/divulgado, também, no sitio Rebelión, e descrita pelo próprio autor, nestes termos:

"La piratería en Somalia acapara los medios de comunicación, pero la
información llega, en la mayoría de los casos, fragmentada, distorsionada, manipulada. Este documental trata de reorganizar y completar la información
existente, ofreciendo un acercamiento a este conflicto, a su origen,
a sus motivaciones... y sobre todo a sus consecuencias.
Para más detalles acerca del proceso de realización, documentación, etc"
 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

África é uma dívida histórica - comenta Jorge Risquet

Por Elaine Tavares – jornalista

Fazia um calor sufocante no solar onde viviam Jorge, os pais e quatro irmãos - outros três já tinham morrido de doenças infantis hoje já desaparecidas em Cuba e perfeitamente curáveis - em Havana.  A grande casa tinha 24 quartos e em cada um deles, sem banheiro, vivia uma família. Era gente demais, todos muito pobres, a maioria trabalhadores de diversos ofícios, alguns informais. O pai de Jorge trabalhava numa “tabaquera”, empresa de fabricação do charuto cubano. Mas foi essa babel que possibilitou ao menino de 11 anos começar a vida de professor, ganhando, inclusive, o suficiente para pagar o quarto onde morava a família toda. “Nós estávamos sempre nos mudando porque meus pais não conseguiam pagar os aluguéis”. Então, para ajudar nas despesas Jorge e a irmã improvisaram uma lousa no pequeno quarto onde viviam e ensinavam os demais garotos do solar que não podiam ir à escola, porque era longe e eles não tinha sequer um sapato para usar. Cobravam alguns trocados, mas com isso garantiam o aluguel.
O menino era Jorge Risquet Valdés, que mais tarde veio a ser um dos organizadores da educação na guerrilha cubana e um dos comandantes da campanha de Cuba na África, nos anos 60. Naqueles dias, ele, que era um dos melhores alunos da escola fundamental, já estava apto para passar ao ensino médio. Mas, para estudar na Cuba pré-revolucionária, era preciso ter dinheiro. Sem chance, ele, então com 13 anos, foi buscar os cursos oferecidos gratuitamente pela Juventude Revolucionária Cubana.
Apesar da pouca idade Jorge não era um analfabeto político. Os pais, trabalhadores do tabaco, tinham profunda consciência de classe. É que em Cuba, na produção de charuto era assim: as pessoas ficavam ali, enrolando as folhas, no mais completo silêncio. Por conta disso, os trabalhadores inventaram um bom jeito de se instruir e ficar por dentro da literatura revolucionária. Faziam uma “vaquinha” e contratavam um leitor, alguém que ficava ali, lendo, enquanto todos trabalhavam. “O leitor trazia uma lista de títulos e os trabalhadores escolhiam. Liam Gorki, Vitor Hugo, Cervantes Martí, Tolstoi e muitos outros”. Pois foi por conta destas leituras que a família Risquet sempre esteve em dia com os temas do mundo. O irmão mais velho de Jorge, inclusive, alistou-se para ir à Espanha lutar contra a ditadura de Franco. Cerca de mil cubanos foram. Então, durante a segunda guerra e o horror nazista, Jorge já estava envolvido até os dentes na organização da juventude revolucionária. Quando em 1944 funda-se em Cuba a Juventude Socialista, Jorge está lá e toma para si a tarefa de organizar os jovens num grande bairro de Havana. No ano seguinte, durante o Congresso Nacional Constituinte da Juventude, ele, com 15 anos, é eleito membro do Comitê Central.
Aos 16 anos de idade Jorge comanda o jornal quinzenal “Mella”, que levava o nome de um grande comunista cubano, e ali ficou até os 20 anos. “Os trabalhadores cubanos sempre foram muito politizados. Para se ter uma idéia, quando Lênin morreu, as tabaqueiras pararam em sua homenagem, e nas guerras de independência do século XIX entregavam dinheiro – um dia de salário por semana – para comprar armas, tarefa que realizava o partido Revolucionário Cubano, fundado por José Martí, para preparar a terceira e última guerra de independência de Cuba. Em 1951, quando acontece o golpe de estado que eleva Batista ao poder, Jorge é um dos que se manifesta contra pelo rádio, na região de Matanzas onde encabeçava a Juventude Socialista e a polícia o persegue. Meses mais tarde vai para o exterior como representante da Juventude Socialista cubana na  Federação Mundial da Juventude Democrática. Nesta função ele circula pela América Latina, Europa central e Leste europeu.
É em 1952, em Viena, na Conferência Mundial pelos Direitos da Juventude que Jorge conhece o jovem Raul Castro, então com 21 anos e representando a delegação cubana no evento.  Dali eles atravessam a cortina de ferro e seguem para Bucareste, onde iriam organizar o Comitê Preparatório do Festival Mundial da Juventude. Lá ficam de dezembro de 52 a abril de 53. Raul segue para Paris de onde embarca para Cuba com dois guatemaltecos. Mas, o fato de os dois companheiros terem desembarcado cheios de livros “subversivos” fez com todos acabassem presos. Os guatemaltecos logo saíram por intervenção da embaixada do seu país, ainda sob o comando de Jacob Arbenz. Mas Raul ficou. Foi um brilhante jovem advogado quem entrou com um habeas corpus que tirou Raul da cadeia pouco menos de um mês do ataque ao quartel Moncada, que desataria a revolução cubana. O advogado bom de conversa era Fidel Castro. “Por pouco Raul não perde a ação de Moncada”.
Quando acontece Moncada Risquet está Bucareste, justamente nos dias do IV Festival Mundial e já começa a articular uma campanha internacional pela libertação dos prisioneiros, afinal Raul era um membro da juventude e organizador do festival. Foi por aqueles dias de organização de campanhas e festivais que Jorge conhece, em Bucareste, o jovem estudante de medicina Agostinho Neto que mais tarde viria a ser uma das mais importantes lideranças de libertação da África negra. Junto com ele, freqüentando os alojamentos latino-americanos – embora representassem Portugal – iam também a Marcelino dos Santos.
Em 1954 Jorge embarca para Guatemala, onde ia organizar um festival regional de apoio ao processo revolucionário, mas o golpe e a queda de Jacob Arbenz, impede que o mesmo aconteça. É naqueles dias que Risquet conhece Che Guevara, então vivendo no país.  “A ditadura na Guatemala foi uma das mais ferozes. Foram 30 anos matando gente, mais de duzentos mil mortos”. Risquet logo sai da Guatemala em setembro de volta para Europa e Che segue para o México, onde encontraria Fidel.

Chê e Fidel

Nos primeiros meses de 1955, Jorge veio para o Brasil, onde tentou organizar um encontro de estudantes no Rio de Janeiro, mas foi espinafrado por Carlos Lacerda. Foi Jânio Quadros, então governador de São Paulo, quem permitiu o festival, que acabou sendo bem pequeno, mas cumprindo com os objetivos.

A guerrilha em Cuba
Todo este trabalho organizativo na juventude comunista desde os 13 anos de idade acabou sendo a porta de entrada de Jorge Risquet para a atuação na luta que se forjava em Cuba. No ano de 1955 ele volta para a ilha clandestinamente e passa a comandar a Juventude de Havana. Por conta de sua atuação acaba preso em dezembro de 56 e chega a ser dado como desaparecido. Nestes dias é brutalmente torturado, tendo as unhas arrancadas, mas não lhe arrancam qualquer informação. Quando consegue sair, volta a atuar clandestinamente organizando a juventude. Depois sai de Cuba, disfarçado, para organizar reuniões com os partidos comunistas no México, Caribe e Venezuela. “A idéia era dar a conhecer sobre Fidel, quem ele era, o que pretendia, e buscar apoio para a luta em Cuba”.
Quando a guerrilha é instalada na Sierra Maestra, logo começa a expandir-se para outras regiões do país. Raul funda então a “segunda frente” e manda buscar Risquet para coordenar a criação de uma Escola de formação. A proposta era tornar os rebeldes sujeitos conscientes sobre contra o quê estavam lutando. “A gente trabalhava no sentido de fazer compreender que o combate era contra o imperialismo. E, naqueles dias, sob o comando da “segunda frente” tínhamos mais de 11 mil quilômetros quadrados de território liberado. As escolas proliferaram”.
Jorge Risquet fez-se então o primeiro formador político do exército rebelde no Oriente e quando a revolução triunfou ocupou o cargo de chefe do Departamento de Cultura do Exército do Oriente publicando revistas e preparando quadros para o governo revolucionário. E assim foi até 1965, organizando, na região oriental, o novo Partido Unido da Revolução, hoje chamado Partido Comunista. Mas, no mês de junho, ele recebe um chamado de Fidel. Diz o comandante que Che Guevara está no Congo, ajudando na luta por libertação, e que precisa de mais uma coluna de combatentes por lá. É quando começa a se formar o batalhão Patrice Lumumba, que seria comandado por Risquet.

Patrice Lumumba inspirou o batalhão e a "missão afrocubana" na luta por independência


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